Como os morcegos podem nos ajudar a compreender o comportamento humano nas redes sociais?

Sentado à mesa com profissionais de comunicação, uns anteriores a internet e outros que se adaptam ao digital, um dos debates foi “como entender os corações e mentes” dos cidadãos, por meio do seu comportamento nos sites de mídias sociais (ou internet).

Os colegas da comunicação indicaram, em suma, duas alternativas: mensuração e hábitos de consumo na internet e o monitoramento e clusterização dos públicos. Vozes, em menor número composta, sobretudo por profissionais de outras áreas de formação apontaram a importância da imersão e a netnografia para se identificar pistas de como conquistar os corações e mentes. Evidente que outros defenderam um processo misto, holístico e até modismos norte-americanos.

A mensuração, monitoramento e a própria netnografia, – compreendidas aqui como uma abordagem sistemática e objetiva para o desenvolvimento e obtenção de indicadores para a tomada de decisões, seja para reduzir uma incerteza, resolver um problema ou compreender um fenômeno. Ao se desenvolver uma pesquisa, dentre os objetivos, busca-se compreender:

1- os aspectos sensoriais;
2- comportamento;
3- atitudes;
4- crenças e valores

Para obter resposta aos quatro pontos supracitados é possível adotar uma metodologia de pesquisa exploratória, descritiva ou causal. Por meio da pesquisa exploratória é possível identificar ideias, definir problemas, estabelecer metas para o futuro, seja com entrevista em profundidade ou grupos focais, como método de investigação.

Já na pesquisa descritiva, por meio de questionários, observação, é possível descrever características de grupos, comportamentos diante de determinada situação, fazer previsões específicas e relacionar variáveis. Por fim, a pesquisa causal, a partir de experimentos sejam em laboratórios ou em campo, é possível inferir relações de causa e efeito.

Com as pesquisas (exploratórias, descritivas ou causais) consigo identificar rastros que me permitam compreender “crenças e valores”, “atitudes” e “comportamentos”, contudo os aspectos sensoriais – onde residem as respostas para conquistar “corações e mentes” me parece que são extremamente difíceis de compreender sem antes superar a visão reducionista e explicação física para um fenômeno mental.

Enquanto o debate – lá na mesa com os colegas de comunicação – saia da esfera acadêmica ou científica e partia mais para o clima de “gincana de teorias de comunicação”, me ocorreu de lembrar do artigo “Como é ser um morcego?”, escrito pelo filósofo Thomas Nagel (1974), um crítico do reducionismo relativo a concepção de mente-corpo, principalmente pelo fisicalismo. Apesar de, aparentemente distante, a referência teórica da “filosofia da mente” para ajudar a responder a pergunta como “conquistar corações e mentes a partir da análise do comportamento humano nas redes sociais?”, os “morcegos de Nagel” são extremamente úteis para a reflexão sobre tal desafio.

Nagel (1974) ao refletir sobre os morcegos – para discorrer sobre a consciência e a relação mente-corpo – aborda uma questão importante: acreditamos que os morcegos têm experiências e, com uma visão reducionista somos capazes de atribuir tipos gerais de experiência com base na estrutura e comportamento do animal. Pronto. Eis aqui o nosso ponto de intersecção entre as limitações das pesquisas/estudos nas mais diversas áreas da ciências humanas para saber como “conquistar os corações e mentes” dos cidadãos a partir dos seus comportamentos nos sites de redes sociais.

Erroneamente, a partir do comportamento dos usuários nas redes sociais, buscamos entender a sua consciência, ou para retornar a Nagel, como é ser um morcego. A fragilidade central das tentativas para compreender o que se passa nos “corações e mentes” é de que antes mesmo de se formar uma concepção de como é ser um morcego – cabe ressaltar, é um ato de imaginar como seria um morcego – é preciso, primeiramente, se adotar o ponto de vista do morcego. Nagel provoca: “quero saber o que é para um morcego ser um morcego”. E eu provoco: apenas com os rastros deixados pelos usuários nas redes sociais é possível saber “o que é para um morcego ser um morcego”:?

“Não ajuda tentar imaginar que alguém tenha membranas sob os braços que o habilite a voar ao entardecer e ao alvorecer pegando insetos com a boca, que tenha a visão muito precária e
perceba o mundo à sua volta por um sistema de sinais de som em alta freqüência refletidos, e que passe o dia pendurado de cabeça para baixo com os pés no teto de um sótão. Até onde eu consiga imaginar isso (e não chego muito longe), isso apenas me diz como seria para mim comportar-me como um morcego se comporta. Mas não é essa a questão. Eu quero saber como é, para um morcego, ser um morcego. Se eu ainda assim tento imaginar isso, fico restrito aos recursos da minha própria mente, inadequados para a tarefa. Não consigo isso nem mesmo imaginando acréscimos à minha experiência presente, nem imaginando segmentos gradualmente subtraídos dela, nem imaginando uma combinação de acréscimos subtrações e modificações” (NAGEL, 2005, p. 250).

É justamente isso que os pesquisadores em comunicação, on ou off, fazem: imaginamos como é ser um morcego e, como consequência apenas formamos uma concepção esquemática de como realmente será “ser um morcego”, porém não captamos a subjetividade. Mais grave, buscamos compreender o que é ser um morcego removendo o ponto de vista do morcego. Assim, com as nossas pesquisas não respondemos a pergunta: “Como é ser um morcego?”. Apenas com muita imaginação, um punhado de dados e intuição, dizemos (e aqui está um dos maiores equívocos) o que é ser um morcego, criamos personas para o morcego, clusterização para o morcego, categoria para o morcego e, agora até mesmo, fazemos previsões das rotas que os morcegos podem adotar. As consequências é que reforçamos o reducionismo fisicalista é deixamos de lado o caráter subjetivo da experiências.

“(…) quaisquer que sejam as variações quanto à forma, o fato de um organismo ter, seja lá como for, uma experiência consciente significa, basicamente, que há algo que seja ser como aquele organismo [that there is something it is like to be that organism]. Pode haver implicações adicionais sobre a forma da experiência; pode mesmo haver implicações sobre o comportamento do organismo (porém, disso eu duvido). Mas, fundamentalmente, um organismo tem estados mentais conscientes se, e somente se, existe algo que é como ser esse organismo, algo que é como ser para o organismo [something it is like for the organism]. (NAGEL, 2005, p.247).

Seja qual for o estatuto dos fatos, seja como ser um morcego ou ser um humano, é preciso concordar com Nagel quando sinaliza que estarmos preparados para pensar no caráter subjetivo da experiência sem nos apoiarmos na imaginação. “Isso deve ser considerado como um desafio para se formar novos conceitos e arquitetar um novo método – uma fenomenologia objetiva que não dependesse de empatia ou da imaginação” (NAGEL, 2005, p. 261).

Por fim, e para reflexão, a partir do morcego de Nagel e das literaturas e experiências no campo da comunicação, quanto maior for a diferença entre nós e o outro sujeito de experiência, menor será a expectativa de assertividade de conquistarmos os “corações e mente” e, quiçá responder “como é ser um morcego?”.