Fact-checking e o jornalismo de dados

Com o borramento do campo jornalístico, onde qualquer um, desde que conectado à internet pode se tornar um potencial emissor de conteúdo, o papel do jornalista ganha cada vez mais relevância, principalmente para verificar informações, discursos públicos e as notícias falsas (fake news) que circulam a todo vapor no ecossistema comunicacional.

A checagem de notícias faz parte do habitus jornalístico, contudo com as Novas Tecnologias de Informação e Comunicação, liberação do polo emissor e sites de redes sociais, a importância da verificação da informação passou a ocorrer, também, para além das redações, páginas de jornais e sites jornalísticos.

No momento em que existe um debate mundial sobre o impacto do “fake news” nas eleições nos Estados Unidos, a discussão sobre o fact-checking (verificação do fato) está em pauta na sociedade e, com mais ênfase, no campo da comunicação. Duas perguntas centrais guiam tais debates:

1- Qual o papel dos jornalistas em um cenário marcado por notícias falsas?
2- Como o jornalismo pode ajudar a desmentir ou verificar determinados assuntos?

A primeira resposta diz respeito ao desafio e oportunidades para o jornalismo, afinal em um oceano de informações, uma ilha segura nunca foi mais necessária para os leitores. Porém, para se tornar uma “ilha segura”, os jornais precisam readquirir a sua credibilidade e reformular seus respectivos contratos de leituras com a audiência.

Já a resposta para a segunda pergunta, passa, primeiramente, por compreender qual a função das notícias falsas no ecossistema midiático. Claire Wardle, da First Draft, pontua que para entender o desafio é preciso compreender três elementos:

1- os diferentes tipos de conteúdo criado e difundido;
2- as motivações de quem cria esses conteúdos;
3- as formas que se divulga esses conteúdos.

Os dois primeiros pontos é classificado pelo First Draft, uma coalizão formada por diferentes meios de comunicação e centro de investigação para elaborar estratégias para minimizar os efeitos das notícias falsas, quanto ao seus objetivos, que podem ser de paródias até mesmo manipulação de informações e contextos, conforme gráfico abaixo:

Já sobre o mecanismo de divulgação, primeiro os jornais precisam melhorar sua apuração interna sobre as notícias que divulga ou faz a recirculação. Para além das fronteiras jornalísticas, redes de bots e fábrica de trolls têm promovido sofisticadas campanhas de desinformação, o que pode influenciar a opinião pública.

O que o jornalista pode fazer?
A primeira responsabilidade dos jornalistas é apurar o próprio conteúdo publicado e, na medida do possível, verificar discursos públicos e informações compartilhadas pelos usuários. Por meio da conversa com as bases de dados, que cada vez mais tornam-se mais acessíveis, e do fact-checking (verificação dos fatos) é possível checar os conteúdos que circulam no ecossistema comunicacional.

O que você pode fazer?
1- Conte até 10 e se pergunte: essa informação causará dano a alguém? Na dúvida, não transmita;
2- Faça uma busca na internet, em site de notícias ou converse com alguém diretamente envolvido no fato;
3- Analise as fotos em sistemas de busca (basta arrastar uma imagem salva para o buscador);
4- Desconfie de títulos em fontes maiúscula;
5- Desconfie do fato narrador (quase sempre anormais) ou que merecem recompensas;
6- Analise o site (quem somos, verifique se tem endereço, um telefone de contato);
7- Verifique se a url é condizente com o título da matéria;
8- Feito tudo isso, mais uma vez respire fundo e pergunte: será mesmo verdade?

Conheça a metodologia utilizada pelo LabCaos para verificar os fatos (fact-checking)

O LabCaos segue os princípios de verificação de fatos da International Fact-Checking Network (IFCN). A metodologia adotada considera as boas práticas desenvolvidas pelo Chequeado (Argentina) e PolitiFact (Estados Unidos).

1- Selecionar uma frase para verificação;
2- Observar a relevância da frase;
3- Consultar a fonte original;
4- Consultar a fonte oficial;
5- Consultar fontes alternativas;
6- Contextualizar a informação;
7- Qualificar a análise;
8- Disponibilizar a base de dados;
9- Criar classificadores para a frase verificada.

Os classificadores são:

Correta – a afirmação é precisa.
Verdadeira, mas – a afirma é verídica, porém precisa de esclarecimentos adicionais.
Falsa – a afirmação está errada
Incorreta, mas – é parcialmente precisa, mas excluiu elementos importantes para a compreensão ou desconsidera o contexto em que a informação é noticiada.
Estamos de olho – impossível de verificar os dados neste momento.

Explicações sobre o método

Que tipo de frases são selecionadas?
Frase de agentes políticos ou personalidades públicas que possam impactar no debate sobre o agendamento midiático e, consequentemente, o debate público.

Quais os critérios de relevância?
Relevante são frases que tenham o potencial de influenciar a vida das pessoas, será publicada por meios de comunicação relevantes e é de utilidade pública.

O que é fonte original?
A pessoa responsável por tal declaração.

O que é fonte oficial?
Administração pública (em todas as esferas e poderes)

O que são fontes alternativas?
Entidades não governamentais, academia, livros e especialistas sobre determinado assunto

O que é contextualizar a informação?
Apresentar a verificação do fato (frase) em um contexto que seja possível do cidadão compreender a assertividade ou não de determinada declaração.

O que é qualificar a análise?

Acrescentar camadas de análise e dados que ajudem compreender a real situação sobre o fato que é verificado.

Por que disponibilizar a base de dados?
Todos os materiais coletados e utilizados durante a verificação são disponibilizados para que os próprios cidadãos possam tirar as suas próprias conclusões.

Para que criar classificadores para a frase verificada?
Com isso é possível finalizar o processo de verificação.