A canonização de Irmã Dulce no Twitter

Foto: Divulgação

#Apresentação, metodologias e ferramentas
A canonização da primeira santa brasileira, Santa Dulce dos Pobres, foi um evento de repercussão internacional. O processo, realizado no Vaticano, foi pauta na imprensa e nas redes sociais. Para compreender a repercussão da cerimônia, o LabCaos coletou, por meio da API do Twitter, publicações com o termo “irmã dulce”, entre 10 a 16 de outubro de 2019. O Netlytic foi utilizado para a coleta dos termos retornando um banco de dados de 89.605 itens que foram minerados no SQLLite. As visualizações foram geradas no DataWrapper e o grafo das redes no Netlytic.

#Dados e análises
No período supracitado foram coletados 89.605 tuítes, realizados por 49.909 usuários únicos, sendo o pico de menções no domingo (13), data em que ocorreu a missa celebrada pelo papa Francisco, no Vaticano.

Ao analisar a geolocalização (desde que ativa pelos usuários) notou-se a predominância de tuítes oriundos da Bahia, acompanhado pelos demais estados do Nordeste e o estado de São Paulo.

 

Em relação as palavras mais citadas no Twitter observou-se que os termos “irmã” e “dulce” foram citado pelos usuários, seja positivamente ou negativamente, para contextualizar opiniões sobre o evento e narrar o fato em si. Os termos “canonização”, “vaticano” e “cerimônia” estiveram associados mais ao evento em si do que à Santa, inclusive com críticas aos gastos de autoridades brasileiras com a viagem ao exterior. Já os termos “santa”, “pobres” e “brasileira” foi onde se identificou usuários em tom mais celebrativo pela canonização.

Por fim, cabe destacar os termos “obras” e “bolsonaro”. Quando usados conjuntamente foram parte da ação orquestrada dos simpatizantes do presidente para espalhar a liberação de verbas pelo governo federal para o 13º salário do Bolsa Família e recursos para as obras de Irmã Dulce, em Salvador (BA). Bolsonaro (principalmente no dia 10) foi duramente criticado pela ausência no evento.

Em relação aos usuários mais mencionados no Twitter, a deputada federal, Tabata Amaral, ficou no topo do ranking, com forte polarização (positivas e negativas) ao seu posicionamento sobre o “empreendedorismo” de Irmã Dulce. Curioso observar como a parlamentar conseguiu se destacar nas conversas sobre a canonização superando os demais parlamentares e veículos de comunicação como o El Pais, Globo News e Poder 360.

A segunda no ranking @adrialcantara17 é um perfil destinado a defesa do presidente Bolsonaro e os RTs partiram, em sua grande maioria, da bolha pró-Bolsonaro, o que pode indicar que a usuária é um nó importante na rede de apoio ao presidente. Curioso observar também como os perfis pessoais de jornalistas como Gerson Camarotti foi superior a própria GloboNews – canal do qual é colunista – e o Blog do Noblat que fecha o ranking dos top 10.

Vale frisar a influência dos meios de comunicação no agendamento de conversas nas redes sociais. Quatro veículos de comunicação estão entre os 10 usuários mais citados, se somar os jornalistas Gerson Camarotti e Blog do Noblat são seis perfis entre os mais mencionados. O perfil oficial do Senado foi mencionado para questionar os gastos com os senadores e o escritor Paulo Coelho teve sua opinião sobre a canonização replicada por seus seguidores.

Em relação aos usuários mais ativos e que mais tuitaram sobre Irmã Dulce cabe observar que 8 dos 10 perfis do ranking, apenas o @vbio tem menos de 70% de chance de ser um “robô”, de acordo com o PegaBot. Existe um padrão nas demais contas em replicar conteúdos de diferentes fontes e sites, o que sugere uma ação automatizada. O perfil mathfreireb_ foi suspenso pelo Twitter.

Por fim, ao analisar a rede e ligações entre os usuários em torno da canonização é possível identificar diversos níveis de proximidade (e distanciamento) entre eles. Mais importante são as redes à margem dos principais nós – em sua maioria pautadas pela politização e/ou significação política e simbólica do evento – onde foi observada a celebração mais “religiosa” pela canonização do que o acirramento ideológico.

Conheça os deputados estaduais mais influentes e populares no Facebook

A segunda edição do estudo sobre a influência e popularidade dos deputados estaduais baianos no Facebook, realizado pelo LabCaos, traz análise da performance dos parlamentares nas redes sociais. A pesquisa analisou as páginas dos 63 membros da Assembleia Legislativa da Bahia para elaborar o ranking de influência – de acordo com o volume das conversações geradas pelos parlamentares – e o ranking de popularidade – que mede a quantidade da base de fãs registrada por cada deputado.

Clique para fazer o download do estudo na íntegra

De acordo com o estudo do LabCaos, o presidente da (ALBA), Nelson Leal (PP), foi o que registrou o maior crescimento na taxa de engajamento e a deputada estadual, Talita Oliveira (PSL), foi a que registrou o maior crescimento de novos fãs no Facebook, entre maio e julho. “O estudo integra as pesquisas que realizamos sobre democracia digital, governo eletrônico e atuação política nas redes sociais”, explica o fundador do LabCaos, Yuri Almeida.

Em termos de influência, o deputado Nelson Leal (PP) lidera o ranking com taxa de 31.27%%, seguido pela deputada Talita Oliveira (PSL), com 13,99%, Jacó (PT), com 10.4%, Kátia Oliveira (MDB), com 7.18% e Jurailton Santos (PRB), com 5.43%, ocupam as cinco primeiras posições no ranking de engajamento.

Já quando o assunto são os deputados mais populares, o cenário é diferente. A liderança é de Marcell Morares (PSDB), com 246.244 fãs, seguido por Capitão Alden (PSL), com 220.723, Jânio Natal (Podemos), com 127.313, Fabíola Mansur (PSB), com 68.906 e Paulo Câmara (PSDB), com 65.851.

Para o professor Yuri Almeida o estudo é importante para revelar quais deputados fazem o melhor uso das redes sociais. “O mais importante são as conversas que os deputados conseguem gerar com os cidadãos nas redes sociais. A internet é um ambiente propício ao diálogo e exercício da cidadania, por isso os parlamentares devem ampliar a sua presença na internet”, defende o responsável pela pesquisa.


Estudo
Realizado entre 1 de maio a 31 de julho de 2019, o estudo foi feito a partir dos dados públicos disponibilizados pelo Facebook. Após raspagem, os dados foram estruturados e analisados pelo LabCaos, hub especializado em ciência de dados e gestão de mídias sociais. O estudo integra uma série especial sobre a presença e atuação dos parlamentares e instituições baianas nas redes sociais. O primeiro estudo foi realizado com os dados de 04/02/2019 (data da abertura dos trabalhos legislativos) até o dia 30/04/2019 e pode ser visto neste link.

A próxima publicação será sobre a atuação dos deputados federais baianos.


Monitoramento #LACClimateWeek e #JuntosPeloClima

A Semana do Clima da América Latina e Caribe foi realizada em Salvador (BA), entre os dias 19 e 23 de agosto, com o objetivo de debater desafios e alternativas para a mudança climática na região. Eram esperados participantes de 33 países da América Latina e Caribe, além de outras regiões do mundo, de mais de 90 nacionalidades diferentes.

Para analisar a repercussão do evento no Twitter, o LabCaos monitorou as hashtags #LACClimateWeek e #JuntosPeloClima de 12 a 24 de agosto. A coleta foi realizada por meio do Netlytic e os dados tratados no Open Refine. As bases de dados estão disponíveis aqui e aqui.

#LACClimateWeek
A hashtag oficial do evento contabilizou 7.767 tuítes realizados por 4.283 usuários únicos. Em termos de idioma, o inglês foi predominante com 46,05% das publicações, seguido por espanhol (38,43%) e português (12,81%). Na rede abaixo, os nós mais afastados (laranja) foram de usuários ironizando o presidente Bolsonaro e as queimadas na Amazônia. Os demais nós estão ligados pelo interesse direto sobre a pauta do evento:

Quando visualizamos as palavras mais mencionadas pelos usuários no Twitter é possível identificar que os tuítes foram, em sua maior parte de relatos sobre o evento. Destaque para os debates sobre o “Brazil”, após as denúncias sobre as queimadas na Amazônia, a cobertura dos perfis do governo da Guatemala, quando da palestra do ministro do Meio Ambiente (#ministroalonzo) e sessões #ClimateAction e/ou #ClimateChange puxadas, sobretudo por subdivisões da ONU (que receberam número considerável de retuítes):

Em termos de usuários mais ativos, o ativista @Env_Onjolo_Vic lidera (apesar de ter realizado apenas RT de outros perfis), seguido pelo usuário @gabrieldread (com tuítes mais autorais) e @IfalibadjagouDo (também só realizou RT):

Já em termos de menções, a ONU e suas respectivas subdivisões registaram maior engajamento no Twitter:

Por fim, em termos de volume o dia 21 foi o que registrou maior pico de publicações – 1.591 no total:

 

 

#JuntosPeloClima
Durante o período monitorado foram identificado apenas 109 tuítes com a respectiva hashtag realizado por 65 usuários únicos. A tag foi utilizada oficialmente pela Prefeitura do Salvador, porém ficou restrita a “bolha” da prefeitura da capital baiana e agentes políticos, conforme podemos ver nas redes abaixo:

O nó verde são referências a @onubrasil – organizadora do evento;
O nó vermelho é da @natdenatalia – com seguidores comentando uma foto sua postada no evento;
O nó lilás é composto pelas ligações entre o prefeito e vice-prefeito de Salvador.

No gráfico abaixo é possível visualizar os termos mais utilizados nas publicações coletadas:

Ao longo do período analisado, a abertura do evento foi a que registrou maior volume de tuítes, 59 no total:

Em relação aos usuários que mais tuitaram, o prefeito ACM Neto e a Prefeitura do Salvador lideraram:

Por fim, em termos de engajamento, o perfil @natdenatalia foi o que recebeu maior número de menções – superando inclusive o perfil da Prefeitura do Salvador e do prefeito ACM Neto:

#Dia30VaiSerMaior

Após sete dias (23 a 29 de maio de 2019) de coletas no Twitter da hashtag #Dia30VaiSerMaior, o movimento ganhou fôlego nas redes e criou uma rede bem diversas (gráfico acima), com seis clusters bem definidos – sendo o último o com mais laços – justamente formado por “pessoas comuns” (imagem abaixo):

Pessoas comuns

Vale destacar o comportamento do volume de tags ao longo da semana:

Por fim, em relação aos termos mais “quentes”, destaques para Moro (ministro Sérgio Moro) e o presidente (Jair Bolsonaro – aqui citado por apoiadores e detratores):

Os diferentes cluster e suas relações:

http://picasion.com/

Como os morcegos podem nos ajudar a compreender o comportamento humano nas redes sociais?

Sentado à mesa com profissionais de comunicação, uns anteriores a internet e outros que se adaptam ao digital, um dos debates foi “como entender os corações e mentes” dos cidadãos, por meio do seu comportamento nos sites de mídias sociais (ou internet).

Os colegas da comunicação indicaram, em suma, duas alternativas: mensuração e hábitos de consumo na internet e o monitoramento e clusterização dos públicos. Vozes, em menor número composta, sobretudo por profissionais de outras áreas de formação apontaram a importância da imersão e a netnografia para se identificar pistas de como conquistar os corações e mentes. Evidente que outros defenderam um processo misto, holístico e até modismos norte-americanos.

A mensuração, monitoramento e a própria netnografia, – compreendidas aqui como uma abordagem sistemática e objetiva para o desenvolvimento e obtenção de indicadores para a tomada de decisões, seja para reduzir uma incerteza, resolver um problema ou compreender um fenômeno. Ao se desenvolver uma pesquisa, dentre os objetivos, busca-se compreender:

1- os aspectos sensoriais;
2- comportamento;
3- atitudes;
4- crenças e valores

Para obter resposta aos quatro pontos supracitados é possível adotar uma metodologia de pesquisa exploratória, descritiva ou causal. Por meio da pesquisa exploratória é possível identificar ideias, definir problemas, estabelecer metas para o futuro, seja com entrevista em profundidade ou grupos focais, como método de investigação.

Já na pesquisa descritiva, por meio de questionários, observação, é possível descrever características de grupos, comportamentos diante de determinada situação, fazer previsões específicas e relacionar variáveis. Por fim, a pesquisa causal, a partir de experimentos sejam em laboratórios ou em campo, é possível inferir relações de causa e efeito.

Com as pesquisas (exploratórias, descritivas ou causais) consigo identificar rastros que me permitam compreender “crenças e valores”, “atitudes” e “comportamentos”, contudo os aspectos sensoriais – onde residem as respostas para conquistar “corações e mentes” me parece que são extremamente difíceis de compreender sem antes superar a visão reducionista e explicação física para um fenômeno mental.

Enquanto o debate – lá na mesa com os colegas de comunicação – saia da esfera acadêmica ou científica e partia mais para o clima de “gincana de teorias de comunicação”, me ocorreu de lembrar do artigo “Como é ser um morcego?”, escrito pelo filósofo Thomas Nagel (1974), um crítico do reducionismo relativo a concepção de mente-corpo, principalmente pelo fisicalismo. Apesar de, aparentemente distante, a referência teórica da “filosofia da mente” para ajudar a responder a pergunta como “conquistar corações e mentes a partir da análise do comportamento humano nas redes sociais?”, os “morcegos de Nagel” são extremamente úteis para a reflexão sobre tal desafio.

Nagel (1974) ao refletir sobre os morcegos – para discorrer sobre a consciência e a relação mente-corpo – aborda uma questão importante: acreditamos que os morcegos têm experiências e, com uma visão reducionista somos capazes de atribuir tipos gerais de experiência com base na estrutura e comportamento do animal. Pronto. Eis aqui o nosso ponto de intersecção entre as limitações das pesquisas/estudos nas mais diversas áreas da ciências humanas para saber como “conquistar os corações e mentes” dos cidadãos a partir dos seus comportamentos nos sites de redes sociais.

Erroneamente, a partir do comportamento dos usuários nas redes sociais, buscamos entender a sua consciência, ou para retornar a Nagel, como é ser um morcego. A fragilidade central das tentativas para compreender o que se passa nos “corações e mentes” é de que antes mesmo de se formar uma concepção de como é ser um morcego – cabe ressaltar, é um ato de imaginar como seria um morcego – é preciso, primeiramente, se adotar o ponto de vista do morcego. Nagel provoca: “quero saber o que é para um morcego ser um morcego”. E eu provoco: apenas com os rastros deixados pelos usuários nas redes sociais é possível saber “o que é para um morcego ser um morcego”:?

“Não ajuda tentar imaginar que alguém tenha membranas sob os braços que o habilite a voar ao entardecer e ao alvorecer pegando insetos com a boca, que tenha a visão muito precária e
perceba o mundo à sua volta por um sistema de sinais de som em alta freqüência refletidos, e que passe o dia pendurado de cabeça para baixo com os pés no teto de um sótão. Até onde eu consiga imaginar isso (e não chego muito longe), isso apenas me diz como seria para mim comportar-me como um morcego se comporta. Mas não é essa a questão. Eu quero saber como é, para um morcego, ser um morcego. Se eu ainda assim tento imaginar isso, fico restrito aos recursos da minha própria mente, inadequados para a tarefa. Não consigo isso nem mesmo imaginando acréscimos à minha experiência presente, nem imaginando segmentos gradualmente subtraídos dela, nem imaginando uma combinação de acréscimos subtrações e modificações” (NAGEL, 2005, p. 250).

É justamente isso que os pesquisadores em comunicação, on ou off, fazem: imaginamos como é ser um morcego e, como consequência apenas formamos uma concepção esquemática de como realmente será “ser um morcego”, porém não captamos a subjetividade. Mais grave, buscamos compreender o que é ser um morcego removendo o ponto de vista do morcego. Assim, com as nossas pesquisas não respondemos a pergunta: “Como é ser um morcego?”. Apenas com muita imaginação, um punhado de dados e intuição, dizemos (e aqui está um dos maiores equívocos) o que é ser um morcego, criamos personas para o morcego, clusterização para o morcego, categoria para o morcego e, agora até mesmo, fazemos previsões das rotas que os morcegos podem adotar. As consequências é que reforçamos o reducionismo fisicalista é deixamos de lado o caráter subjetivo da experiências.

“(…) quaisquer que sejam as variações quanto à forma, o fato de um organismo ter, seja lá como for, uma experiência consciente significa, basicamente, que há algo que seja ser como aquele organismo [that there is something it is like to be that organism]. Pode haver implicações adicionais sobre a forma da experiência; pode mesmo haver implicações sobre o comportamento do organismo (porém, disso eu duvido). Mas, fundamentalmente, um organismo tem estados mentais conscientes se, e somente se, existe algo que é como ser esse organismo, algo que é como ser para o organismo [something it is like for the organism]. (NAGEL, 2005, p.247).

Seja qual for o estatuto dos fatos, seja como ser um morcego ou ser um humano, é preciso concordar com Nagel quando sinaliza que estarmos preparados para pensar no caráter subjetivo da experiência sem nos apoiarmos na imaginação. “Isso deve ser considerado como um desafio para se formar novos conceitos e arquitetar um novo método – uma fenomenologia objetiva que não dependesse de empatia ou da imaginação” (NAGEL, 2005, p. 261).

Por fim, e para reflexão, a partir do morcego de Nagel e das literaturas e experiências no campo da comunicação, quanto maior for a diferença entre nós e o outro sujeito de experiência, menor será a expectativa de assertividade de conquistarmos os “corações e mente” e, quiçá responder “como é ser um morcego?”.